Actio Nova IA Sobre
Essencial

Critérios para o uso profissional de IA

O que decidir antes de compartilhar materiais e aproveitar respostas

Esta página organiza algumas decisões que antecedem o primeiro uso profissional de qualquer ferramenta de inteligência artificial: que material faz sentido compartilhar para a tarefa, como a conta está configurada, como conferir a resposta que você recebe, o que continua sendo trabalho seu e qual regime jurídico alcança você na tarefa que está executando.

Livro jurídico e documentos protegidos por planos digitais translúcidos

Essas decisões combinam deveres profissionais e condições técnicas de uso. As condições específicas de cada produto devem ser conferidas na documentação oficial e nas políticas vigentes do fornecedor, que podem mudar. O que está aqui organiza as perguntas que permanecem antes dessa conferência.

A escolha da ferramenta também faz parte desse primeiro exame: a utilidade do recurso depende da tarefa, do material envolvido e da forma de conferência. Veja como escolher a ferramenta pela tarefa.

1. O que acontece com o material enviado

Em uma ferramenta de inteligência artificial em nuvem, o conteúdo necessário à solicitação é enviado para processamento fora do dispositivo. Instalar um aplicativo no computador não significa que o processamento seja local. Armazenamento, revisão humana e uso para treinamento dependem do serviço, do contrato e das configurações aplicáveis à conta. Antes do primeiro uso profissional, confira essas condições na página de Configurações.

Também existem ferramentas que executam modelos de IA no próprio computador. Quando o processamento é inteiramente local, o conteúdo não precisa ser enviado à nuvem para essa operação. Confira se o recurso utilizado funciona dessa forma, pois buscas na internet e integrações podem envolver serviços externos. Permanecem os cuidados com o acesso ao equipamento e com os arquivos armazenados.

Quando o arquivo original trouxer comentários, revisões, informações de autoria ou conteúdo oculto, vale conferir a cópia que será enviada. Esse cuidado é especialmente útil quando a tarefa exige retirar informação identificável ou protegida; veja o aprofundamento sobre preparação de documentos.

Cuidados com o material profissional

O cuidado com o uso de IA começa pela tarefa e pelo material necessário para realizá-la. Uma consulta sobre uma decisão pública pode exigir preparação simples; documentos com informações de clientes, dados pessoais ou estratégia do caso pedem atenção ao recorte e ao ambiente utilizado. Esses cuidados permitem aproveitar a ferramenta preservando as informações confiadas ao profissional.

O Código de Ética e Disciplina impõe ao advogado o dever de guardar sigilo dos fatos de que tome conhecimento no exercício da profissão (art. 35). Esse dever tem natureza pública e independe de solicitação do cliente, e as comunicações entre advogado e cliente presumem-se confidenciais (art. 36). O sigilo cede apenas diante de circunstâncias excepcionais que configurem justa causa, como grave ameaça ao direito à vida e à honra ou defesa própria (art. 37). Violá-lo sem justa causa é infração disciplinar, nos termos do art. 34, VII, da Lei 8.906/1994.

Convém não confundir esse dever com a inviolabilidade do art. 7º, II, do Estatuto. A inviolabilidade do local de trabalho, dos instrumentos de trabalho e da correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, quando relativas ao exercício da advocacia, não dispensa o cuidado com o envio a serviços externos. Compartilhar uma informação não elimina, por si só, seu caráter protegido. São garantias com objetos distintos: a inviolabilidade protege contra o ingresso e a devassa indevidos; o sigilo profissional limita a revelação e o compartilhamento das informações confiadas ao advogado.

Há ainda processos que tramitam em segredo de justiça nas hipóteses do art. 189 do Código de Processo Civil. A restrição de acesso deve ser considerada antes de enviar conteúdo dos autos a uma ferramenta de IA. Poder consultar o processo não significa, por si só, poder encaminhá-lo a qualquer serviço externo. Avalie a finalidade, o material indispensável e as condições jurídicas e técnicas do ambiente escolhido.

Dados pessoais: o que importa neste momento

Processos e documentos profissionais frequentemente mencionam pessoas que não são o cliente — parte contrária, testemunha ou terceiro citado em laudo. Dados de saúde, vida sexual, origem racial ou étnica, convicção religiosa e filiação sindical, por exemplo, recebem proteção reforçada na LGPD. A pergunta inicial não é resolver toda a classificação jurídica do tratamento, mas verificar se esses elementos são necessários para a tarefa proposta.

Quando a tarefa não depender da identidade das pessoas, prepare uma cópia com apenas as informações necessárias. Nomes, documentos e contatos dispensáveis podem ser retirados ou substituídos por rótulos, como “autor” e “testemunha”. Essa redução não garante anonimização: datas, valores e a própria narrativa ainda podem permitir a identificação.

Na pseudonimização, a associação com a pessoa depende de informação adicional mantida separadamente, em ambiente controlado e seguro. Para avaliar a anonimização, considere também a possibilidade de identificação indireta e os meios razoavelmente disponíveis para revertê-la.

Consulte a diferença entre anonimização e pseudonimização e os cuidados de preparação de documentos. A explicação se apoia na LGPD e no estudo jurídico da ANPD sobre anonimização.

Prepare essa cópia em ambiente adequado antes de enviá-la. Se recorrer a outro serviço para ocultar identificadores, avalie também as condições de envio do documento original a esse serviço.

O que a norma exige e o que é prudência

É dever: guardar sigilo dos fatos conhecidos no exercício da profissão, respeitar a restrição de acesso dos autos em segredo de justiça e tratar dados pessoais com finalidade e segurança adequadas. Na prática, escolha o recorte e o ambiente adequados à tarefa. A preparação deve preservar as informações necessárias para conferir o resultado.

O que fazer com isso

  1. Envie o material necessário à tarefa. O envio integral dos autos deve corresponder a uma necessidade identificada, consideradas as condições do serviço e os cuidados aplicáveis ao conteúdo.
  2. Quando houver informação pessoal ou estratégica dispensável, use rótulos funcionais e retire o que não servir à pergunta.
  3. Em documentos sob sigilo ou com dados sensíveis, avalie com atenção se a conta e o ambiente são compatíveis com a tarefa.
  4. Quando o dado sigiloso for indispensável à tarefa, avalie se a ferramenta, a conta e o ambiente oferecem condições proporcionais ao caso. Se não oferecerem, escolha outro caminho de trabalho.

Para seguir esse cuidado em uma cópia de trabalho, veja como preparar documentos antes de usar IA.

Se houver envio indevido de conteúdo sensível, interrompa novos envios e procure a orientação responsável no caso, no escritório ou na instituição. Medidas de contenção, exclusão e eventual comunicação dependem das circunstâncias.

2. Configurar a conta antes do primeiro uso profissional

Antes de enviar material profissional, confira as condições aplicáveis à conta e os controles disponíveis. O tratamento dos dados depende do serviço, do contrato, da modalidade de acesso e das configurações, que podem variar entre produtos. Quatro perguntas organizam essa verificação.

O que acontece com o que eu envio? Treinamento, revisão humana, retenção e exclusão são aspectos distintos do tratamento dos dados: desligar o uso para treinamento não define, por si só, a retenção nem as hipóteses de revisão previstas pelo serviço.

A revisão pelo fornecedor é diferente da conferência profissional do resultado. Para examinar cada controle e seu alcance, veja as condições do conteúdo enviado em Configurações.

Que informações podem ser retomadas ou acessadas, e o que pode ser compartilhado? Confira separadamente a memória, os conectores e integrações e os recursos de compartilhamento por link.

Sob que regime está a minha conta? Contas pessoais, corporativas e acesso por API podem seguir políticas de dados diferentes dentro do mesmo produto — inclusive quanto ao uso para treinamento. A mesma ferramenta pode se ajustar melhor ou pior a determinada tarefa jurídica conforme o plano contratado e o material envolvido.

Continuidade e custos

O que acontece quando a cota acaba? Esta pergunta trata de limite de uso, teto de gasto e condições de continuidade. Confira se o plano prevê interrupção, cobrança adicional ou mudança dos recursos disponíveis. Não atribua automaticamente uma resposta insatisfatória ao esgotamento da cota.

O que fazer com isso

  1. Percorra as quatro perguntas antes do primeiro uso profissional e confira as respostas aplicáveis à conta utilizada.
  2. Se desejar testar controles visíveis, use material fictício, conforme a página de Configurações.
  3. Reconfira quando mudarem o plano, as políticas ou os recursos utilizados.

As políticas variam entre serviços e modalidades de conta. Consulte a documentação correspondente ao plano efetivamente utilizado e registre a data, sem estender suas condições a outros produtos.

3. A resposta é rascunho, não fonte

Uma resposta bem escrita não comprova a correção de seu conteúdo. A geração de conteúdo falso ou sem sustentação nas fontes disponíveis, apresentado de forma plausível, é conhecida como alucinação; por isso, fluência e confiança aparente não substituem a conferência. Na pesquisa jurídica, a presença de número de processo, relator, data e ementa não basta: é necessário localizar a fonte e conferir o que ela efetivamente sustenta. Trate a resposta como material de trabalho a verificar, não como autoridade jurídica.

Separe três questões: a referência existe? Seu conteúdo sustenta a afirmação? Ela se aplica ao caso e ao período examinado? Um julgado corretamente identificado pode tratar de situação distinta. Sua orientação também pode ter sido modificada ou superada. Cada questão exige conferência própria.

A conferência é especialmente necessária quando não se consegue localizar a referência, quando o trecho indicado não sustenta a conclusão ou quando a ferramenta atribui uma transcrição a uma obra que não conseguiu consultar. A aparência do texto, favorável ou contrária à tese, não substitui a leitura da fonte.

O que fazer com isso

  1. Peça a fonte antes da conclusão, não depois.
  2. Confira no repositório oficial do tribunal ou no portal da norma, não em agregador.
  3. Leia o inteiro teor quando a conclusão depender dele.
  4. Verifique vigência, redação aplicável à época dos fatos, embargos, afetação, modulação e superação por julgado posterior.
  5. Trate citação de doutrina com página como afirmação a conferir no exemplar.

Nada entra em peça, parecer ou mensagem ao cliente sem que se saiba de onde veio.

Confira também se a resposta distingue fatos documentados, suposições e inferências. Se você não tiver condições de validar um ponto relevante, busque a fonte ou a revisão de quem possa fazê-lo. Veja como separar fatos, fontes e argumentos e aprofundar a conferência de fontes jurídicas.

4. O que continua sob responsabilidade profissional

Uma distinção organiza todo o resto: delegar tarefa não é delegar juízo. Tarefa é organizar relato, comparar documentos, resumir decisão longa, listar pontos controvertidos, sugerir estrutura, apontar lacuna, revisar clareza, propor perguntas críticas à própria tese. Juízo é escolher a tese, avaliar cabimento, decidir estratégia probatória, formular o pedido, medir risco, definir o que se afirma e o que se omite — e assinar.

Mesmo quando a redação parece pronta, a escolha dos argumentos e a avaliação de sua pertinência continuam a exigir revisão profissional. Fluidez e acabamento não demonstram que o resultado seja adequado ao caso.

A ferramenta não exerce o juízo profissional de quem conduz o caso. Seu uso não dispensa a revisão do resultado nem afasta os deveres do advogado. Isso não exclui eventual responsabilidade do fornecedor ou de outros envolvidos, que dependerá dos fatos e do regime jurídico aplicável.

O art. 32 do Estatuto da Advocacia prevê responsabilidade pelos atos profissionais praticados com dolo ou culpa. Já o art. 34, IX, tipifica como infração disciplinar o prejuízo, por culpa grave, a interesse confiado ao patrocínio. A origem automatizada de um erro não dispensa a análise desses requisitos nem justifica aproveitar conteúdo sem conferência.

O que fazer com isso

  1. Defina o que pode ser executado pela ferramenta e o que exige decisão profissional. Se a tarefa mudar, reveja esses limites expressamente antes de prosseguir.
  2. Nos trabalhos em que seja necessário reconstruir a decisão, registre o que foi revisado e por quem, de forma proporcional à relevância do resultado.

5. Qual regime alcança você

Não existe um regime único de uso de inteligência artificial. Existem regimes que incidem conforme a qualidade em que a pessoa atua — e a mesma pessoa costuma atuar em mais de uma.

Algumas perguntas ajudam a identificar o regime aplicável: em que qualidade estou atuando nesta tarefa? Que órgão ou entidade regula essa atuação? Esse órgão já se manifestou sobre uso de inteligência artificial? Há norma interna aplicável — do escritório, do órgão, da instituição de ensino, do periódico, do contrato com o cliente? Incidindo mais de uma regra, como compatibilizar seus âmbitos e exigências?

Na advocacia privada, incidem o Estatuto e o Código de Ética e Disciplina. A Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB, de 11 de novembro de 2024, orienta o uso de IA generativa em quatro eixos: legislação aplicável, confidencialidade e privacidade, prática jurídica ética e comunicação com o cliente. Convém distinguir a natureza orientadora desse documento dos deveres previstos em lei e no Código de Ética.

A comunicação com o cliente é uma decisão anterior ao uso, não apenas uma providência ao final do trabalho. Os itens 4.1.1, 4.2.1 e 4.3.1 da recomendação preveem formalização prévia por escrito, explicação do propósito, dos benefícios, das limitações, dos riscos e das medidas de proteção, além de consentimento informado expresso. Essa autorização não afasta o sigilo profissional nem substitui a análise da base legal para tratar dados de terceiros.

Para os órgãos do Poder Judiciário, a Resolução CNJ nº 615, de 11 de março de 2025, alterada pela Resolução nº 674, de 25 de março de 2026, disciplina o uso de inteligência artificial pelos respectivos órgãos, e não pela advocacia — distinção que convém não perder de vista. O advogado figura ali como usuário externo, com direito a informação em linguagem acessível.

Na advocacia pública, confira as regras do órgão e os ambientes autorizados para a tarefa. Como leitura complementar, o Guia de Boas Práticas do uso da Inteligência Artificial Generativa na Advocacia Pública, da RENAGEI — Rede Nacional de Governança, Estratégia e Inovação da Advocacia Pública Brasileira —, reúne orientações sobre supervisão, proteção de informações e escolha de ferramentas. A indicação permite conhecer esse referencial institucional; não substitui as normas aplicáveis ao órgão nem significa adoção integral de suas orientações pelo Actio Nova IA.

Em compliance e departamento jurídico, examine também a política interna de uso de ferramentas, as cláusulas de confidencialidade, as regras do regulador setorial e o programa de integridade. Esses instrumentos complementam as normas legais aplicáveis e podem estabelecer autorizações e registros específicos.

Na pesquisa apoiada pelo CNPq, o art. 9º, I, da Portaria CNPq nº 2.664/2026 exige declaração do uso de IA generativa e atribui aos autores responsabilidade pelo conteúdo final. A alínea “e” veda inserir projetos de pesquisa de terceiros nessas ferramentas para elaborar pareceres científicos: não se trata de mero desaconselhamento. Esse regime não deve ser apresentado como regra universal de toda produção acadêmica. Confira também as normas da instituição e a política do periódico.

Quem acumula papéis deve identificar as regras aplicáveis a cada tarefa. Uma regra mais restritiva não prevalece automaticamente: é necessário considerar seu âmbito, sua hierarquia e eventuais conflitos. Separar contas e ambientes pode facilitar esse controle, mas não resolve, por si só, a questão jurídica.

O que fazer com isso

  1. Identifique seu papel na tarefa e as regras aplicáveis. Se houver dúvida relevante, esclareça esse ponto antes de usar o material profissional.
  2. Este inventário envelhece: confirme a redação vigente antes de apoiar decisão relevante nele.

Referências bibliográficas

CENTRO DE ESTUDOS, RESPOSTA E TRATAMENTO DE INCIDENTES DE SEGURANÇA NO BRASIL. Inteligência artificial. São Paulo: NIC.br, set. 2026. (Cartilha de Segurança para Internet). Acessar o fascículo no site externo do CERT.br.

AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS. Estudo técnico sobre a anonimização de dados na LGPD: análise jurídica. Versão 1.0. Brasília, DF: ANPD, nov. 2023. Consultar o estudo no site externo da ANPD.