Modalidades de uso da IA
O que muda ao conversar, pesquisar, produzir documentos e executar ações
Uma mesma ferramenta pode conversar, consultar fontes, preparar um documento e executar ações. Reconhecer o que está em uso ajuda a formular o pedido, escolher os materiais e definir como conferir o resultado.
1. Modelo, chat e agente
Um modelo de linguagem é um sistema treinado para processar e gerar linguagem. A sigla LLM, do inglês large language model, designa um modelo de linguagem de grande escala. O modelo produz respostas a partir do contexto recebido; a resposta gerada não demonstra, por si só, que houve pesquisa na internet ou conferência de fontes.
O chat é a interface de conversa. Por ela, o usuário pode acessar a geração de respostas e, conforme o produto, recursos de pesquisa, documentos e outras ferramentas. A mesma aparência de conversa pode, portanto, dar acesso a operações diferentes.
Um sistema com agentes pode usar modelos e ferramentas para conduzir etapas com algum grau de autonomia, observar resultados e ajustar o trabalho em direção a um objetivo. Essas categorias não se excluem: um agente pode usar um LLM e ser operado por chat. O alcance concreto depende dos recursos, dos acessos e dos controles disponíveis.
Por exemplo, produzir uma tabela na conversa e criar um arquivo com essa tabela são operações distintas. Na primeira, você recebe conteúdo para examinar. Na segunda, existe também um efeito no ambiente: um arquivo será criado em determinado local. A simples presença de uma ferramenta de busca ou de arquivos, isoladamente, não descreve todo o grau de autonomia do sistema.
Para aprofundar a distinção prática, veja Como distinguir chatbot, assistente e agente.
2. O prompt e o contexto orientam o trabalho
Prompt é a entrada apresentada ao modelo para orientar a resposta. Pode reunir o pedido, instruções, exemplos e informações de contexto. No uso cotidiano, o usuário costuma chamar de prompt a mensagem que escreve; conforme o sistema, outras instruções e informações também podem compor a entrada recebida pelo modelo.
Um pedido útil esclarece o resultado esperado. “Analise esta decisão” deixa em aberto o que será examinado. Ao receber uma decisão sobre tutela provisória, você pode precisar identificar as determinações, os prazos e as questões deixadas para exame posterior. O pedido pode delimitar essa leitura:
Pedido para organizar a leitura de uma decisão:
Com base apenas na decisão fornecida, organize em tabela o que foi decidido. Indique, quando constarem do texto, quem deve cumprir cada determinação, o prazo, as condições e as ressalvas, preservando a relação entre esses elementos. Separe as questões reservadas para exame posterior. Para cada registro, indique a página e o trecho de apoio. Sinalize passagens ilegíveis e informações que dependam de documentos não fornecidos. Nesta etapa, limite a entrega à organização do conteúdo da decisão; deixe o cálculo de vencimentos e a avaliação das providências para exame separado.
O pedido define a tarefa e os critérios de conferência. A tabela precisa preservar o alcance de cada deliberação: uma ordem pode ter prazo, uma multa pode ter limite e uma questão mencionada pode ainda não ter sido decidida. Cabe ao advogado comparar o resultado com a decisão integral. O quadro organiza a leitura; o cálculo de vencimentos e a escolha da providência processual exigem exame próprio.
O contexto inclui os materiais e as informações disponíveis para aquela execução. Não presuma que um arquivo apenas mencionado, uma conversa anterior ou uma informação conhecida por você estejam disponíveis à ferramenta. Quando um documento for indispensável, confirme seu acesso e a versão utilizada. Anexar ou conectar um arquivo também não demonstra, por si só, que todas as suas partes foram consideradas na resposta.
O pedido pode ser ajustado durante o trabalho: você pode esclarecer uma dúvida, fornecer o trecho que faltava ou corrigir o formato da entrega. Um pedido claro ajuda a orientar a tarefa, mas não garante correção nem altera permissões técnicas.
Veja O que pode permanecer — e o que deve ficar na tarefa e, para conduzir a tarefa depois do pedido, Do pedido ao resultado.
3. Reconheça a operação em curso
Conversar e organizar
A ferramenta pode ajudar a esclarecer uma questão, comparar possibilidades e organizar dúvidas. Ao preparar uma reunião com o cliente ou examinar os documentos recebidos, peça que separe fatos relatados, informações faltantes e perguntas que dependem de documento. O resultado é um roteiro de trabalho: as hipóteses levantadas não se tornam fatos apenas porque foram bem organizadas.
Se o objetivo ainda estiver indefinido, esse uso pode anteceder a redação ou a pesquisa. Confira, porém, se as perguntas propostas são pertinentes e se a ferramenta não introduziu premissas que você não forneceu.
Pesquisar fontes
Pesquisar envolve localizar e examinar material que sustente a resposta. Identifique a fonte consultada, abra o documento e confira autoria ou órgão responsável, data, conteúdo e pertinência. Em matéria jurídica, verifique também se a norma ou decisão corresponde ao período e ao problema em análise.
Uma referência verdadeira pode ter sido aplicada incorretamente; uma lista de links não demonstra leitura de todos eles. Se a ferramenta não conseguir acessar o documento, essa limitação deve permanecer explícita, em vez de ser preenchida por uma explicação presumida de seu conteúdo.
Para aprofundar a localização e a conferência de fontes, veja Pesquisa jurídica com IA: fontes e conferência.
Criar uma versão
O resultado pode ser uma nota, uma cronologia, um quadro comparativo, uma contestação ou um recurso em versão de trabalho. Defina o que pode mudar e o que deve permanecer: fatos, datas, transcrições, tese e alcance do pedido. Sugestões podem ser apresentadas separadamente, para que a revisão não confunda alteração de estilo com mudança de sentido.
Uma tabela bem apresentada ainda pode omitir uma condição importante. Uma minuta fluente pode acrescentar um fato não documentado. Confira o conteúdo contra o material de partida; o acabamento da resposta não substitui esse cotejo.
Agir sobre o ambiente
Quando houver ferramentas para isso, o sistema pode consultar uma conta, criar ou alterar arquivos e enviar conteúdo. Delimite os materiais e o destino, as operações permitidas e os momentos que exigem aprovação.
“Organize esta pasta” pode ser um pedido amplo. “Liste os arquivos desta pasta de trabalho, sem mover ou excluir, e apresente uma proposta de organização” estabelece um primeiro resultado conferível. Depois de examinar a proposta, você decide quais alterações autorizar. Essa delimitação escrita precisa ser acompanhada dos controles de acesso disponíveis no ambiente.
4. Comparar a inicial e a contestação
Na preparação da réplica, comparar a inicial e a contestação ajuda a organizar o que foi alegado, as respostas apresentadas e os pontos que exigem exame. A ferramenta pode preparar um quadro para a revisão do advogado, com referências aos dois documentos.
O trabalho pode começar pela organização das questões: quais fatos são narrados na inicial e onde a contestação trata deles? Em seguida, a ferramenta procura as passagens nos dois documentos e prepara uma tabela com alegação, resposta localizada e referência de origem. A conferência recai sobre as correspondências: o trecho responde àquela alegação ou trata de assunto diferente?
Se uma resposta não for localizada, o quadro deve registrar o limite da busca. Esse resultado, por si só, não demonstra que houve admissão do fato ou que determinada consequência processual se produziu. Essa avaliação cabe ao advogado, à luz do conjunto dos autos e do regime aplicável.
Se a tarefa também exigir pesquisa jurídica, explicite essa etapa: defina a questão, localize as fontes pertinentes e confira seu alcance. Distinguir essa pesquisa da comparação documental ajuda a separar o que as peças efetivamente dizem da análise jurídica que será construída a partir delas.
Produzir a tabela na conversa é criação de conteúdo. Salvar um arquivo novo, substituir uma versão ou encaminhá-la a alguém acrescenta uma ação sobre o ambiente. Se houver recurso e autorização para salvar, indique o destino e preserve os documentos de entrada. O quadro continua provisório até a revisão das passagens e das lacunas.
Antes de aproveitar o quadro na preparação da peça, confira as passagens indicadas e os documentos aos quais elas se referem. Para verificar quais partes de um documento foram consideradas, veja O que a ferramenta leu.
5. Confira materiais, resultado e ações autorizadas
Três perguntas ajudam a delimitar o trabalho:
- O que está disponível? Quais documentos, versões, fontes e acessos a ferramenta pode utilizar?
- O que deve ser entregue? Uma explicação, uma síntese, uma transcrição, uma tabela ou um arquivo? Esses resultados pedem critérios diferentes de conferência.
- Que ações estão autorizadas? Consultar, criar uma cópia, alterar um documento, enviar ou publicar não são permissões equivalentes.
No contencioso, confira também se o resultado distingue alegação da parte, informação documentada e conclusão do próprio texto. Uma afirmação na petição não se transforma em fato provado por aparecer no resumo. Preserve a identificação de quem afirma e do documento em que a passagem foi encontrada.
Se faltar informação indispensável, peça que a lacuna seja indicada. Se surgir necessidade de ampliar as fontes ou as ações, avalie essa ampliação antes de continuar. Na revisão, confronte o resultado com os documentos e com o que foi autorizado, sem presumir que o relato da ferramenta comprova sozinho tudo o que foi feito.
6. Cuidados proporcionais e supervisão
Documentos e páginas externas podem conter instruções dirigidas à ferramenta. Receber esse conteúdo não o transforma em autorização para mudar a tarefa. Delimite os acessos e as ações disponíveis e mantenha aprovação antes de operações relevantes. Essas medidas reduzem o risco e não dispensam conferência.
Na advocacia, a Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB, de 11 de novembro de 2024, orienta a supervisão do uso de IA e a compreensão de seu funcionamento, suas limitações e seus riscos, especialmente nos itens 3.1 e 3.4. Essa orientação deve ser distinguida dos deveres previstos na legislação e no Código de Ética. O uso da ferramenta não transfere a decisão profissional.
Para aprofundar o acompanhamento de tarefas com ferramentas e ações, veja Supervisão proporcional à autonomia.
Referências técnicas para consulta
As referências abaixo permitem aprofundar conceitos e orientações técnicas. Sua indicação não significa adoção integral dos documentos nem recomendação de contratação.
- Anthropic: modelos, ferramentas e agentes — explicação arquitetural em inglês; artigo de 2024 com aviso de mudanças posteriores nas ferramentas.
- Anthropic: formulação de prompts — documentação em inglês sobre objetivos, critérios de avaliação e limites do aprimoramento de pedidos.
- OWASP: injeção de instruções — referência técnica em inglês sobre conteúdo externo e medidas para reduzir riscos.
Leitura complementar
MOLLICK, Ethan. Cointeligência: a vida e o trabalho com IA. Tradução de Roberta Clapp. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2025. E-book. Cap. 3.