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Método e cautelas

Verificação de respostas de IA

Como conferir a existência, o conteúdo e a pertinência das fontes

Um texto bem estruturado pode transmitir segurança sem que suas informações a mereçam. A qualidade da linguagem e a confiabilidade do conteúdo precisam ser avaliadas separadamente.

Sistemas generativos podem inventar fatos, fontes, citações, datas, nomes e explicações. Também podem errar de modos menos evidentes: usar informação verdadeira, porém desatualizada; omitir uma condição decisiva; confundir arquivos; resumir corretamente a maior parte de uma decisão e perder a ressalva central; ou apresentar inferência como se fosse conclusão da fonte.

Separar esses erros orienta a correção. Uma referência inventada exige confirmação de existência. Um dado antigo pede fonte atual. Uma omissão requer comparação com o original. Um cálculo demanda verificação independente. Uma inferência deve aparecer como análise, não como transcrição ou fato.

Três perguntas que precisam de respostas próprias

A fonte existe e foi identificada?Confirme o documento, a autoria ou o órgão, a versão e a localização. Uma referência plausível ou um endereço fornecido pela ferramenta ainda precisa ser conferido.
O conteúdo sustenta a afirmação?Compare a passagem com o que foi escrito. Observe condições, exceções, autoria de cada posição e diferenças entre transcrição e interpretação.
A conclusão é pertinente à tarefa?Uma informação pode ser fiel à fonte e insuficiente para a conclusão pretendida. Examine o contexto e os elementos adicionais necessários à análise.

Confirmar a existência de um julgado não confirma a leitura feita dele. Reproduzir corretamente seu conteúdo também não demonstra que ele resolva outro caso. São conferências relacionadas, mas com objetos distintos.

O percurso de verificação

  1. Identifique o que é verificável. Nomes, números, datas, regras, citações, funcionalidades e afirmações sobre processos pedem confirmação.
  2. Identifique a fonte. Obtenha o documento ou endereço de referência e confirme sua existência por acesso direto. A indicação da ferramenta não demonstra, por si só, que ela consultou esse conteúdo.
  3. Abra a fonte. Título, ementa, nome do arquivo ou trecho exibido são pistas; não substituem a leitura do conteúdo relevante.
  4. Compare afirmação e suporte. Verifique se a fonte realmente sustenta o que foi escrito.
  5. Observe data e contexto. Órgão, classe processual, fase, versão, país e situação podem alterar o alcance da informação.
  6. Separe fato, transcrição e análise. A conclusão do autor pode decorrer da fonte sem estar literalmente contida nela.
  7. Registre a incerteza. Se a confirmação for insuficiente, o texto deve dizê-lo.

Exemplo: o documento confirma o que a síntese afirma?

Considere um exercício fictício: o único material disponível é uma comunicação que registra que a parte declarou ter enviado determinados comprovantes. O trecho não contém os comprovantes, não confirma seu recebimento e não informa decisão sobre a controvérsia.

Afirmação da sínteseResultado da conferênciaProvidência
A comunicação registra que a parte declarou ter enviado os comprovantes.Há apoio no material para essa atribuição.Preservar a indicação de que se trata da declaração da parte.
A comunicação registra que a parte declarou não ter enviado os comprovantes.A afirmação contradiz o registro descrito.Corrigir a negativa e conferir se o erro afetou outras passagens.
Os comprovantes foram recebidos e demonstram a quitação integral.O material é insuficiente para estabelecer essa conclusão.Obter e examinar os documentos pertinentes antes de concluir.

A falta de suporte para a terceira afirmação não demonstra que ela seja falsa; demonstra que não pode ser confirmada com esse material. Solicitar à mesma ferramenta que repita a avaliação não acrescenta, por si só, a documentação ausente.

Quando uma frase reunir várias afirmações, confira-as separadamente. No último exemplo, recebimento dos documentos e quitação integral são conclusões distintas: confirmar uma delas não confirmaria automaticamente a outra.

A distinção entre suporte, contradição e indeterminação orienta esse cotejo. Essa classificação ajuda a examinar a fidelidade de uma afirmação ao material disponível; não substitui a valoração jurídica das provas.

No uso jurídico

A fonte principal controla o fato que dela se extrai. Em uma peça, os autos controlam os fatos do caso; a transcrição deve ser conferida no texto da fonte indicada; a decisão integral permite distinguir tese, fundamento determinante, observação acessória e alcance. Uma síntese gerada não substitui nenhum desses materiais.

Ao conferir um precedente

  • confirme que o processo e a decisão existem;
  • abra o inteiro teor ou a fonte oficial disponível;
  • identifique a questão decidida, o contexto processual e o fundamento determinante;
  • preserve literalmente qualquer trecho apresentado entre aspas;
  • não transforme fundamento, voto isolado ou observação em tese vinculante;
  • confira alterações normativas e a situação do entendimento na fonte competente; uma referência correta pode estar superada;
  • explique a relação entre o precedente e o caso examinado.

Uma revisão de linguagem também precisa preservar o conteúdo

Ao pedir clareza, concisão ou maior formalidade, compare a versão revista com o texto de origem. Observe se foram alterados o sujeito da afirmação, a negativa, a condição, o grau de certeza ou o responsável por determinada posição. Uma frase mais elegante pode ter passado a afirmar algo que o original não dizia.

Em um exemplo fictício, o texto-base informa que a parte alega ter efetuado o pagamento, cuja comprovação ainda será examinada. Se a revisão passar a afirmar que a parte efetuou o pagamento, ela terá eliminado tanto a atribuição da alegação quanto a pendência documental. A correção exige restabelecer esses limites, mesmo que a nova frase pareça mais direta.

A comparação assistida pode indicar diferenças; a aceitação do texto depende do confronto com o original.

Dois objetos, duas conferências

Quando a resposta foi construída a partir de arquivos, há duas perguntas que não se substituem. A primeira é documental: o arquivo recebido era a versão correta, quais partes foram lidas e o original permaneceu íntegro? A segunda é argumentativa: a afirmação feita pela ferramenta corresponde ao teor, ao contexto e ao alcance da fonte?

Conferência do documento Nome, versão, páginas, abas, anexos, elementos não lidos e preservação do original. Preparar e conferir arquivos
Conferência da afirmação Teor da fonte, data, contexto, pertinência e distinção entre transcrição, fato e análise. Aplicar o percurso de verificação

Um arquivo correto pode sustentar uma síntese inadequada; uma citação aparentemente exata pode ter vindo de documento incompleto ou de versão superada. O método exige que as duas verificações fiquem visíveis.

Capacidade declarada e capacidade demonstrada

Os assistentes também podem descrever incorretamente suas próprias capacidades. Em vez de perguntar apenas “você consegue?”, procure evidência operacional: o arquivo aparece como anexado? A página foi aberta? A fonte está identificada? O resultado intermediário é visível? A ação ainda depende de aprovação? O arquivo criado pode ser baixado e aberto?

Esses sinais confirmam aspectos da operação, com alcance limitado. Um arquivo anexado pode estar disponível sem ter sido lido por inteiro; uma página aberta pode não conter a passagem necessária. A cobertura da leitura e o apoio à afirmação precisam ser conferidos separadamente.

O rigor deve ser proporcional à consequência. Nem toda tarefa exige investigação extensa. Mas a verificação precisa aumentar quando a resposta orienta direitos, prazos, estratégia processual, gasto relevante, envio de informações, tratamento de dados sigilosos ou alteração de arquivos.

Ajuste a conferência à consequência do erro

A mesma intensidade de conferência não serve para tudo. O critério útil não é apenas a sofisticação da tarefa, mas o custo de um erro que pareça correto e atravesse a revisão. Sugerir títulos, reorganizar um parágrafo ou listar perguntas para uma reunião costuma ter erro visível e reversível. Afirmar o teor de uma norma, indicar prazo, resumir documento para quem não o lerá ou sustentar uma tese em juízo exige outra disciplina.

Erro visível e reversível Use a resposta como rascunho e examine se ela serve à finalidade.
Erro plausível e consequente Faça da conferência da fonte, do teor, da data e da pertinência parte do próprio fluxo.

Essa classificação não proíbe a ferramenta nas tarefas sensíveis. Ela impede que a fluência reduza o nível de atenção justamente quando a falha teria consequência mais grave.

Quando não usar

A melhor decisão pode ser não inserir a IA no processo: quando o ganho é pequeno e a exposição de dados é alta; quando não há forma razoável de conferir a resposta; quando a tarefa depende de sigilo, relação humana ou julgamento profissional que não pode ser delegado; ou quando a ferramenta não tem acesso ao material que deveria controlar o resultado.

O uso consciente depende de uma disciplina simples: compreender a finalidade, saber o que foi realmente acessado, conferir o que pode ser verificado e manter sob controle as decisões que produzem consequências.

Registre o resultado da conferência

Para as afirmações relevantes, conserve um registro breve com quatro elementos: o que foi afirmado; a fonte e a passagem examinadas; o resultado da comparação; e a providência adotada. Diferencie confirmação, correção e pendência. A expressão “revisado” não informa, sozinha, o que foi efetivamente conferido.

Se uma informação continuar sem suporte suficiente, obtenha o material necessário, limite a conclusão ao que foi confirmado ou retire a afirmação da versão destinada ao uso. Uma ressalva genérica ao final do texto não corrige um dado específico apresentado como certo.

Referências bibliográficas

O guia do National Center for State Courts é norte-americano e aparece aqui apenas como leitura comparativa sobre conferência de respostas. Não descreve regras nem prática judiciária brasileiras.

HUYEN, Chip. AI Engineering: building applications with foundation models. 1. ed. Sebastopol, CA: O’Reilly Media, 2024. Cap. 4, p. 167–168.

HOLANDA, Irving William Chaves. Manual da inteligência artificial generativa (IA-GEN) nos tribunais. Palmas: Esmat, 2025. p. 84–85, 97–98. Acessar a obra no portal externo do TJPE.

COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Guia do uso responsável de inteligência artificial. Brasília, DF: Conab, 2026. p. 11, 14. Acessar o guia no site externo da Conab.

FRANCIS, Mark H.; JARRAL, Ashwini. A legal practitioner’s guide to AI and hallucinations. [S. l.]: National Center for State Courts, 2026. p. 6–8. Consultar o guia no site externo do NCSC.

Para verificar quais partes de um arquivo foram efetivamente examinadas, consulte O que a ferramenta leu. Para formular e corrigir uma tarefa, veja Prompts jurídicos: formulação e refinamento.

APOIA/TRF2. Pontos de atenção da IA. In: Manual da Apoia. [S. d.]. Consultar a documentação em site externo.

Percurso essencial · 2 de 2. Depois desta conferência, retome a tarefa ou avance para Agentes e automação, se houver delegação de ações.