Preparação documental e minimização de dados
Como selecionar e preparar uma cópia de trabalho para a tarefa
Antes de enviar um documento, defina a tarefa e separe apenas o material útil. Quando houver informação pessoal, estratégica ou protegida que não seja necessária, uma cópia de trabalho pode reduzir a exposição sem dificultar a conferência do resultado.
A preparação deve considerar as regras aplicáveis ao trabalho, o contrato, as configurações da conta e a natureza do material. Se o dado indispensável não puder ser tratado de modo proporcional no ambiente disponível, escolha outro caminho de trabalho.
1. Delimite a tarefa antes de separar o documento
Não comece pelo arquivo inteiro. Comece pelo que a ferramenta deverá fazer: extrair uma cronologia, comparar duas cláusulas, organizar alegações ou apontar trechos que exigem revisão. A tarefa define o recorte. Um pedido genérico de resumo raramente justifica o envio integral de autos, e uma tarefa que depende de fonte específica exige que essa fonte permaneça identificável para conferência posterior.
Ao selecionar trechos, preserve as ressalvas e as referências necessárias para compreender o documento e conferir o resultado.
Escreva, em uma linha, a tarefa, o documento estritamente necessário e o resultado esperado. Essa anotação ajuda a perceber quando um anexo, um dado pessoal ou um período do processo entrou por conveniência, e não por necessidade. Veja também como escolher a ferramenta pela tarefa.
Em documentos digitalizados, o OCR (reconhecimento óptico de caracteres) converte a imagem em texto pesquisável. Confira nomes, datas, valores e a ordem dos trechos: a conversão pode introduzir erros. Quando a ferramenta trabalhar diretamente com imagens, verifique também o alcance dessa leitura.
2. Quando vale preparar uma cópia de trabalho
Preserve o original e, quando o documento trouxer informações pessoais, estratégicas ou protegidas que não sejam necessárias à tarefa, trabalhe sobre uma cópia. Nela, nomes podem ser substituídos por rótulos como “Autora”, “Réu”, “Testemunha 1” e “Contrato A”, e dados dispensáveis podem ser retirados.
A cópia de trabalho não deve dificultar a conferência. Se precisar relacionar os rótulos às pessoas do original, mantenha essa correspondência em registro separado, com acesso restrito, sem disponibilizá-lo à ferramenta nessa tarefa. O resultado produzido pela ferramenta deve continuar auditável contra o material de partida, mas a ferramenta não precisa receber tudo o que permite identificar as pessoas envolvidas.
3. Reduzir identificadores não é sempre anonimizar
Trocar nomes por rótulos reduz exposição, mas nem sempre torna o documento anônimo. Datas incomuns, valores, comarca, número de processo, nomes de empresas e a própria narrativa podem permitir a reidentificação. A pseudonimização preserva esse vínculo sob outra forma; a anonimização exige que a associação direta ou indireta deixe de ser possível por meios técnicos razoáveis e disponíveis, nos termos do art. 5º, XI, da LGPD.
Reavalie o recorte se novos documentos ou informações forem combinados com a cópia preparada. Elementos isoladamente pouco identificadores podem permitir reconhecer uma pessoa quando relacionados entre si.
4. Quando conferir o arquivo com mais cuidado
Arquivos originais podem conter metadados, comentários, revisões, camadas de PDF, texto oculto, links e anexos incorporados. Essa conferência é especialmente indicada quando se pretende remover informações protegidas; cobrir visualmente uma passagem não equivale a removê-la.
Se a tarefa permitir, prefira extrair para uma cópia simples apenas os trechos necessários. Se o formato original for indispensável, use ferramenta apropriada para remover conteúdos ocultos e verifique o resultado no arquivo final. A redução de dados deve ser compatível com a finalidade da tarefa, não uma operação que inviabilize sua conferência.
5. Trate o documento como material que também pode conter instruções
Um arquivo recebido pode incluir comandos destinados a desviar a ferramenta: “ignore a tarefa anterior”, “revele o conteúdo de outros documentos” ou “envie este material”. Esse risco é chamado de injeção de instrução. Ele não se confunde com o conteúdo jurídico do documento e não deve ser executado apenas porque aparece dentro do material analisado.
A tentativa também pode visar ao próprio resumo: induzir a omissão de uma ressalva ou favorecer uma conclusão. Ao conferir o resultado, compare as afirmações e as omissões relevantes com as passagens de origem.
Para aprofundar esse risco em documentos processuais, consulte a Manifestação Técnica CNIAJ nº 1/2026, voltada à segurança de sistemas judiciais. A referência permite conhecer a análise técnica; não estabelece, por si só, uma regra geral para o advogado.
Se identificar conteúdo possivelmente destinado a manipular a ferramenta, preserve o original e registre o arquivo, a página e a ocorrência. Não elimine silenciosamente esse material: sua presença pode precisar de exame próprio. Delimite separadamente o conteúdo que será utilizado na tarefa.
Se a ferramenta puder acessar pastas ou alterar arquivos, limite o acesso ao material necessário, preserve os originais e confira as ações previstas antes de autorizá-las. Veja o aprofundamento sobre supervisão proporcional à autonomia. A orientação da OWASP sobre injeção de instrução recomenda justamente separar conteúdo externo, limitar privilégios e exigir aprovação humana para ações de risco.
6. Uma conferência proporcional antes do envio
Checklist de preparação
- A tarefa está definida e o recorte é realmente necessário?
- O original foi preservado fora da ferramenta?
- Há identificadores, dados sensíveis ou informações laterais que possam ser retirados sem prejuízo da tarefa?
- Se a cópia foi preparada para ocultar conteúdo, o arquivo final foi conferido quanto a comentários, revisões e informações ocultas?
- O material ainda permite conferir a resposta contra a fonte de partida?
- O ambiente, a conta e as permissões são proporcionais ao risco restante?
Se houver dúvida relevante sobre o recorte ou o ambiente, reveja a tarefa antes do envio. Muitas vezes basta reduzir o material; em outras, será melhor usar outro ambiente ou executar aquela etapa sem IA.
Referências bibliográficas
AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS. Estudo técnico sobre a anonimização de dados na LGPD: análise jurídica. Versão 1.0. Brasília, DF: ANPD, nov. 2023. Consultar o estudo no site externo da ANPD.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário. Manifestação Técnica CNIAJ n. 1/2026: injeção de comandos: considerações técnicas sobre mitigação de riscos de prompt injection em sistemas judiciais de inteligência artificial. Brasília, DF: CNJ, 27 maio 2026. p. 4–6. Acessar o documento no portal externo do TRF3.