Vocabulário Bloco 1

Segurança, sigilo e noções gerais

O vocabulário das decisões que antecedem o primeiro uso profissional: o que a ferramenta é, para onde vai o material, quem pode lê-lo e o que a lei chama do que você está enviando.

24 termos

Modelo de linguagem (large language model, LLM)

Conceito
Sistema treinado sobre grandes volumes de texto para prever qual sequência de palavras é a continuação mais provável do que recebeu. Não consulta uma base de dados nem raciocina sobre o Direito: produz texto estatisticamente plausível a partir do padrão que aprendeu.
No trabalho jurídico
Essa única frase explica quase todos os acertos e todos os erros que virão. O modelo escreve bem porque foi treinado sobre texto bem escrito, inclusive jurídico; e inventa com a mesma fluência porque plausibilidade, para ele, é o critério. A ferramenta não distingue o precedente que existe do precedente que soaria como se existisse.
Não confundir com
buscador. O buscador recupera um documento que está em algum lugar e devolve o endereço; o modelo gera um texto novo a cada vez. Quando a ferramenta apresenta links e citações, é porque foi acoplada a um mecanismo de busca — não porque o modelo, sozinho, tenha ido conferir.
Exemplo
Perguntado sobre prazo recursal em hipótese incomum, o modelo tende a produzir a resposta que mais se parece com as respostas que leu. Se a hipótese for regida por regra especial pouco frequente nos textos de treinamento, a resposta mais provável não é a correta.

Treinamento e inferência (training and inference)

Conceito
Dois momentos distintos. Treinamento é a fase em que o modelo é construído a partir de um acervo de textos, e o resultado fica incorporado a ele. Inferência é cada uso posterior: você envia um texto, o modelo devolve outro, e nada disso altera o modelo.
No trabalho jurídico
A distinção define o que é reversível. O que você envia numa conversa é inferência: circulou, foi armazenado por algum prazo, pode ser apagado. O que entra no treinamento se dissolve nos parâmetros do modelo e não se retira de lá como se retira um arquivo de uma pasta. É a razão pela qual a configuração de uso para treinamento merece atenção maior que as demais.
Não confundir com
memória. A memória guarda informações suas para reaproveitá-las nas suas próprias conversas; o treinamento incorpora material ao modelo que atende a todo mundo.
Exemplo
Uma minuta enviada em conversa comum pode ser excluída conforme a política do produto. A mesma minuta, se tiver alimentado o treinamento de uma versão futura, já não tem exclusão possível.

Uso do conteúdo para treinamento (content use for training)

Conceito
Configuração ou cláusula contratual que define se o material enviado pelo usuário pode integrar o acervo de treinamento de modelos futuros do fornecedor.
No trabalho jurídico
É a decisão de maior alcance e a de efeito mais duradouro entre todas as que a tela oferece, porque o efeito, uma vez produzido, é praticamente irreversível. Para quem trabalha sob sigilo profissional, desativar essa opção — quando o produto permite — é ponto de partida, não conquista.
O que decidir
Verifique em qual camada a decisão está: alguns planos excluem o uso para treinamento por padrão contratual, outros deixam a escolha ao usuário, outros não a oferecem. Onde o contrato e a tela divergirem, o contrato descreve a obrigação e a tela descreve apenas o comportamento atual do produto.
Não confundir com
retenção nem com revisão humana. São três controles independentes. Desativar o treinamento não apaga o conteúdo, não encurta o prazo de armazenamento e não impede a leitura por revisor humano nas hipóteses previstas na política do fornecedor.
Exemplo
Escritório que desativou o treinamento e concluiu, por isso, que as conversas seriam apagadas ao fim do dia. Não seriam: o prazo de retenção continuava a correr, regido por outra configuração.

Retenção (data retention)

Conceito
Prazo durante o qual o fornecedor conserva o material enviado — conversas, arquivos, registros de uso — em seus próprios sistemas.
No trabalho jurídico
O prazo divulgado ao usuário é o prazo ordinário, não uma garantia de destruição. Obrigação legal ou regulatória dirigida ao fornecedor pode impor conservação além dele, lógica que a própria Lei 13.709/2018 reconhece ao ressalvar, no art. 16, o cumprimento de obrigação legal ou regulatória entre as hipóteses de conservação após o término do tratamento. Ordem judicial dirigida ao fornecedor produz o mesmo efeito.
O que decidir
Antes de enviar material sob sigilo, saiba qual é o prazo, onde ele está declarado e se o seu plano o altera. Registre a data em que conferiu: é informação que muda sem aviso.
Não confundir com
exclusão. Retenção é quanto tempo o material fica; exclusão é o que acontece quando você pede que ele saia — e os dois prazos raramente coincidem.
Exemplo
Consulta pontual sobre documento sensível, feita em conversa comum, permanece armazenada pelo prazo do produto ainda que você apague a conversa da tela no minuto seguinte.

Revisão humana (human review)

Conceito
Hipótese em que pessoas empregadas ou contratadas pelo fornecedor leem trechos de conversas — em regra para avaliar qualidade, apurar denúncia de uso abusivo ou treinar sistemas de moderação.
No trabalho jurídico
Raramente é uma opção do usuário: costuma ser característica do serviço, descrita na política de privacidade e não na tela de configurações. Por isso ela se lê, não se ajusta. Para quem envia material coberto por sigilo profissional, a pergunta não é se a opção pode ser desligada, mas se aquele material deveria ter sido enviado a um produto que a prevê.
Não confundir com
validação humana, que é a sua conferência do resultado. Aqui, o humano que revisa é do fornecedor, e revisa o seu material.
Exemplo
Conversa que aciona um filtro automático de conteúdo pode ser encaminhada a revisor humano para apuração, mesmo que o usuário tenha desativado o uso para treinamento.

Exclusão (deletion)

Conceito
Remoção do material dos sistemas do fornecedor a pedido do usuário. Apagar a conversa na tela e apagá-la no servidor são eventos distintos, com prazos distintos.
No trabalho jurídico
O que costuma escapar são as cópias derivadas: conversa compartilhada por link, trecho incorporado à memória, arquivo anexado que permanece na área de arquivos do produto, resposta copiada para outro ambiente. Excluir a conversa de origem não alcança necessariamente nenhuma delas.
O que decidir
Ao encerrar um trabalho com material sensível, verifique separadamente: histórico, arquivos anexados, memória, links compartilhados e projetos ou espaços de trabalho onde o conteúdo tenha sido reaproveitado.
Exemplo
Minuta apagada do histórico que continua acessível pelo link de compartilhamento gerado três semanas antes.

Conversa temporária (temporary chat)

Conceito
Modo em que a conversa não entra no histórico da conta e é descartada em prazo curto, sem alimentar memória nem personalização.
No trabalho jurídico
Para consulta pontual sobre material sensível, costuma ser a escolha mais adequada disponível ao usuário comum. Duas cautelas: saber qual é o prazo, em vez de presumi-lo; e não confundir “não entra no histórico” com “não é transmitido” — o conteúdo sai do seu computador do mesmo modo, trafega pela rede do mesmo modo e é processado nos servidores do fornecedor do mesmo modo.
Não confundir com
navegação anônima do navegador, que só afeta o registro local. Aqui o efeito é sobre o armazenamento do fornecedor, e mesmo esse efeito é limitado ao histórico.
Exemplo
Verificar a redação de uma cláusula sem que o nome do cliente entre no histórico da conta. O trecho ainda assim é transmitido; o que se evita é a permanência e o reaproveitamento.

Conta pessoal e conta institucional (personal account and business account)

Conceito
Regimes distintos de contratação do mesmo produto. A conta pessoal é regida pelos termos de uso de consumo; a institucional — corporativa, empresarial, de equipe — costuma vir acompanhada de instrumento contratual próprio, com cláusulas sobre tratamento de dados, confidencialidade, retenção e uso para treinamento.
No trabalho jurídico
É a primeira camada de decisão, e a que torna as demais inúteis quando mal resolvida. Configurar cuidadosamente uma conta pessoal para trabalhar com material de clientes é organizar a superfície de um problema que está embaixo. Some-se que, na conta institucional, o administrador do ambiente pode ter acesso a conteúdos e registros de uso — o que resolve um problema e cria outro, a ser considerado quando o escritório atua para partes com interesses contrapostos.
O que decidir
Identifique em qual das três camadas você está autorizado a decidir: regime da conta e contrato; configurações do produto; escolha feita em cada conversa. Nessa ordem.
Exemplo
Advogado que usa a assinatura pessoal para revisar peças do escritório opera fora do instrumento contratual firmado pela banca — e fora das garantias que ele oferece.

Criptografia em trânsito e em repouso (encryption in transit and at rest)

Conceito
Duas proteções diferentes. Em trânsito, o conteúdo é cifrado enquanto viaja entre o seu computador e o servidor, o que impede a leitura por quem intercepte a comunicação. Em repouso, é cifrado enquanto está armazenado, o que impede a leitura por quem obtenha acesso indevido ao disco.
No trabalho jurídico
Nenhuma das duas impede a leitura pelo próprio fornecedor, que detém as chaves e precisa do texto em claro para processá-lo. Criptografia protege contra terceiros; não converte o fornecedor em destinatário impedido de ler. Tratá-la como se fosse sigilo é o equívoco mais comum na avaliação de um produto.
Não confundir com
criptografia de ponta a ponta, em que apenas os interlocutores detêm as chaves. Ferramentas de IA generativa em nuvem, pela natureza do serviço, não operam assim.
Exemplo
Página de segurança que anuncia cifragem em trânsito e em repouso e, na política de privacidade, prevê revisão humana de conversas sinalizadas. As duas informações são verdadeiras e não se contradizem.

Nuvem e execução local (cloud and local execution)

Conceito
Onde o processamento acontece. Na nuvem, o texto sai do seu equipamento e é processado nos servidores do fornecedor. Na execução local, o modelo roda no seu próprio computador ou em servidor sob seu controle, e o conteúdo não sai do ambiente.
No trabalho jurídico
É a distinção que efetivamente muda a resposta à pergunta “o material sai do escritório?”. Modelos executados localmente são hoje menos capazes que os melhores modelos em nuvem e exigem equipamento e manutenção próprios; em compensação, resolvem por arquitetura um problema que, na nuvem, só se resolve por contrato e por confiança no fornecedor.
O que decidir
Nem toda tarefa exige o mesmo regime. Pesquisa conceitual sem dado de cliente e revisão de peça com identificação das partes não precisam correr no mesmo ambiente.
Exemplo
Usar ferramenta em nuvem para estudar a estrutura de um recurso e reservar o processamento local — ou a anonimização prévia — para o texto que contém nomes, valores e fatos do caso.

Autenticação em dois fatores (2FA, MFA)

Conceito
Exigência de dois elementos independentes para acessar a conta: algo que você sabe (a senha) e algo que você tem (um aplicativo gerador de códigos, uma chave física) ou algo que você é (biometria).
No trabalho jurídico
A conta de IA de um advogado concentra minutas, estratégias, documentos de clientes e, quando há conectores, acesso a e-mail e a arquivos. Comprometê-la equivale a comprometer parte relevante do acervo do escritório. O dever de guarda do sigilo profissional não se satisfaz com senha única reutilizada.
O que decidir
Prefira aplicativo gerador de códigos ou chave física ao envio por SMS, vulnerável à transferência fraudulenta de linha. Guarde os códigos de recuperação fora do próprio dispositivo.
Exemplo
Conta acessada de novo dispositivo com senha vazada em incidente alheio. Com o segundo fator ativo, o acesso não se completa.

Dado pessoal (personal data)

Conceito
Informação relacionada a pessoa natural identificada ou identificável (Lei 13.709/2018, art. 5º, I). O critério não é a presença do nome: basta que a informação, isolada ou combinada com outras, permita chegar à pessoa.
No trabalho jurídico
Praticamente todo material de um processo é dado pessoal de alguém — partes, testemunhas, terceiros mencionados. Enviá-lo a uma ferramenta de IA é operação de tratamento, sujeita à lei, e não deixa de sê-lo porque a finalidade é legítima ou porque o advogado tem procuração nos autos.
Não confundir com
dado sigiloso. As categorias se sobrepõem sem coincidir: há dado pessoal sem sigilo e há informação sob sigilo profissional que não é dado pessoal, como a estratégia de um cliente pessoa jurídica.
Exemplo
Número de processo, sozinho, costuma bastar para chegar às partes em sistema de consulta pública. Remover o nome e manter o número não anonimiza coisa alguma.

Dado pessoal sensível (sensitive personal data)

Conceito
Categoria definida na Lei 13.709/2018, art. 5º, II: dado sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico, quando vinculado a pessoa natural. O tratamento segue regime mais restrito, previsto no art. 11.
No trabalho jurídico
Áreas inteiras da advocacia lidam com dado sensível como matéria-prima: previdenciário, saúde suplementar, família, trabalhista com CAT e laudo pericial, criminal. Ao decidir o que pode ser enviado a uma ferramenta, essa categoria merece corte próprio — não o mesmo tratamento do restante dos autos.
O que decidir
Para material sensível, decida antes: anonimizar, processar localmente, ou não delegar. A escolha por conveniência é a única que não se sustenta depois.
Exemplo
Laudo pericial com diagnóstico e histórico clínico enviado para “resumir os pontos principais”. O resumo é útil; o envio integral do laudo a produto de conta pessoal é o problema.

Tratamento (data processing)

Conceito
Toda operação realizada com dados pessoais — coleta, uso, acesso, reprodução, transmissão, armazenamento, eliminação, entre as demais hipóteses do art. 5º, X, da Lei 13.709/2018. É conceito deliberadamente amplo.
No trabalho jurídico
A amplitude é o ponto. Colar um trecho de petição na caixa de texto de uma ferramenta é tratamento; anexar o PDF da decisão é tratamento; deixar um agente ler a pasta do processo é tratamento. Não existe uso casual que escape da definição, e a informalidade da operação não altera o regime aplicável.
Não confundir com
compartilhamento. O compartilhamento é uma das operações de tratamento, não sinônimo do conjunto.
Exemplo
Pedir a uma ferramenta que “apenas leia” um documento não é operação neutra: leitura pressupõe transmissão e armazenamento, ambos tratamento.

Controlador e operador (controller and processor)

Conceito
Controlador é a quem competem as decisões sobre o tratamento; operador é quem realiza o tratamento em nome do controlador (Lei 13.709/2018, art. 5º, VI e VII).
No trabalho jurídico
Ao levar material de cliente a uma ferramenta de IA, o advogado ou a banca decide a finalidade e os meios — e o fornecedor executa. A qualificação exata depende do arranjo concreto e do que o contrato estipula, mas a consequência prática independe dela: a responsabilidade pela escolha do fornecedor, pela finalidade e pelo que se envia não se transfere ao produto. Contratar bem é parte do dever, não substituto dele.
Não confundir com
encarregado, que é a pessoa indicada para atuar como canal de comunicação entre controlador, titulares e autoridade nacional. Função de interlocução, não de decisão sobre o tratamento.
Exemplo
Cláusula contratual que obrigue o fornecedor a não usar o material para treinamento organiza a relação entre as partes; não desloca para ele a decisão de enviar, que continua sendo do advogado.

Anonimização e pseudonimização (anonymization and pseudonymization)

Conceito
Anonimização é o processo pelo qual o dado perde a possibilidade de associação, direta ou indireta, a um indivíduo (Lei 13.709/2018, art. 5º, XI); o dado anonimizado deixa de ser dado pessoal, salvo quando o processo for revertido (art. 12). Pseudonimização é a substituição do identificador por outro, mantida em separado a informação que permite reverter a substituição (art. 13, § 4º) — o dado continua sendo dado pessoal.
No trabalho jurídico
Quase tudo o que se faz na prática é pseudonimização, não anonimização. Trocar nomes por “Autor” e “Ré” e manter datas, valores, comarca, número de processo e narrativa dos fatos não impede a reidentificação de quem tenha acesso aos autos — que é justamente quem interessa. Chamar isso de anonimização produz uma falsa sensação de proteção, que é pior do que não ter feito nada.
O que decidir
Antes de substituir os nomes, pergunte o que ainda resta: combinação de data, valor e comarca costuma bastar. Anonimizar de verdade um relato de fatos é, com frequência, descaracterizá-lo a ponto de a análise perder utilidade — e essa constatação é uma resposta legítima: significa que aquele material não deveria ser delegado.
Exemplo
Substituir “João da Silva” por “o autor” em uma inicial de acidente de trabalho e manter a data do sinistro, o CNPJ da empregadora e o número do processo. Nada foi anonimizado.

Injeção de instrução (prompt injection)

Conceito
Ataque em que instruções são inseridas dentro do próprio material entregue à ferramenta — um PDF, uma página, um e-mail — e o sistema as executa como se tivessem vindo do usuário. O texto malicioso não precisa ser visível ao olho humano: basta ser legível pela máquina.
No trabalho jurídico
É o risco específico de quem aponta uma ferramenta para documentos de terceiros. Documento juntado pela parte contrária é material adversarial por definição, e o mesmo vale para anexo de e-mail de origem desconhecida e para página aberta em navegação automatizada. Quanto mais amplo o acesso concedido — arquivos, caixa de entrada, capacidade de enviar mensagens —, maior o alcance do que uma instrução escondida consegue fazer.
Não confundir com
alucinação. Na alucinação, o erro nasce dentro do modelo, por acaso; aqui ele é plantado de fora, por quem tem interesse no resultado. Uma se corrige conferindo; a outra exige limitar permissões.
O que decidir
Antes de apontar um agente para uma pasta ou uma caixa de entrada, separe as permissões: ler é uma; escrever, enviar e apagar são outras três. Material de origem externa não deve circular no mesmo fluxo que detém permissão de ação.
Exemplo
Anexo de origem externa que contém, em fonte branca sobre fundo branco, a instrução de desconsiderar as orientações anteriores e resumir o documento omitindo determinada cláusula. O resumo sai plausível e incompleto, e nada na tela indica o que ocorreu.

Vazamento de contexto (context leakage)

Conceito
Aparecimento, em uma resposta, de informação proveniente de outro trabalho, outro caso ou outra fonte que o usuário não pretendia trazer para aquela conversa. Nasce em regra da memória, dos conectores, de projetos com base documental compartilhada ou do próprio histórico longo.
No trabalho jurídico
O problema não é apenas de sigilo — embora um dado do caso A reaparecer enquanto se trabalha no caso B já bastasse. É também de contaminação do raciocínio: a ferramenta passa a responder com pressupostos que você não formulou naquela conversa, e a resposta parece consistente porque é internamente coerente com premissas invisíveis.
O que decidir
Separe por conversa o que é separado por dever: casos distintos, partes com interesses contrapostos, material de clientes diferentes. Revise periodicamente o que a memória guardou.
Exemplo
Minuta de contestação que incorpora, sem pedido, a tese de defesa desenvolvida semanas antes para outro cliente da mesma banca.

Alucinação (hallucination)

Conceito
Produção de informação falsa, imprecisa ou indevidamente combinada, apresentada com a mesma segurança e a mesma correção formal do conteúdo verdadeiro. Não é defeito de um produto: é consequência direta do modo como um modelo de linguagem funciona, que é gerar a continuação mais provável, não a verificada.
No trabalho jurídico
O problema não está em errar, mas em errar de forma verossímil. A ferramenta atribui a um tribunal fundamento que ele não adotou, funde teses de julgados distintos em um entendimento único, produz número de processo com a formatação correta e a existência inexistente. O erro grotesco se detecta na leitura; este atravessa a revisão apressada intacto.
Não confundir com
desatualização, que decorre do corte de conhecimento e se corrige consultando fonte atual; nem com injeção de instrução, em que o erro é plantado de fora. Aqui a informação nunca existiu.
Erro comum
supor que a citação de fonte resolve. Ferramentas que citam podem alucinar a citação, ou citar corretamente uma fonte que não sustenta a afirmação que a antecede. O que encerra a verificação é abrir o inteiro teor.
Exemplo
Pedido de precedentes sobre questão processual que retorna cinco julgados: três reais e bem sintetizados, um real com ementa trocada, um inexistente. O conjunto é convincente justamente porque a maior parte confere.

Confiabilidade (reliability)

Conceito
Grau de confiança que se pode atribuir a uma resposta considerada a natureza da tarefa, o tipo de informação envolvida e a possibilidade de verificá-la. É atributo da relação entre resposta e uso pretendido, não qualidade intrínseca do texto.
No trabalho jurídico
A mesma resposta pode ser confiável para uma finalidade e imprestável para outra. Reorganizar a ordem dos parágrafos de uma minuta e afirmar o entendimento atual de um tribunal exigem graus de conferência incomparáveis, ainda que saiam da mesma conversa e com a mesma fluência.
Não confundir com
precisão. Uma resposta pode ser precisa quanto ao documento que leu e pouco confiável para o uso que se pretende dar a ela.
Exemplo
Síntese de decisão anexada: verificável contra o documento, portanto confiável dentro daquele limite. Afirmação sobre como os tribunais vêm decidindo a matéria: não verificável ali, portanto não utilizável sem pesquisa própria.

Precisão da resposta (response accuracy)

Conceito
Grau de exatidão com que a resposta corresponde ao conteúdo real do documento, à instrução recebida e ao problema formulado.
No trabalho jurídico
Em síntese de decisão, a precisão se mede em três eixos que a redação fluente costuma embaralhar: o que foi pedido, o que foi efetivamente decidido e qual foi o fundamento determinante. Deslocamento pequeno em qualquer um deles já compromete o uso do resumo — e é deslocamento que só aparece na conferência contra o inteiro teor.
Não confundir com
elegância. Texto bem construído e texto exato são propriedades independentes, e a primeira dificulta a percepção da ausência da segunda.
Exemplo
Resumo que descreve como razão de decidir aquilo que o acórdão tratou como observação lateral. A frase está no julgado; a função que o resumo lhe atribui, não.

Validação humana (human validation)

Conceito
Conferência do resultado por pessoa responsável antes do uso efetivo. Alcança correção do conteúdo, aderência ao caso, precisão terminológica, fidelidade ao documento e utilidade estratégica.
No trabalho jurídico
É onde o dever profissional se materializa. A responsabilidade de quem assina não se atenua pela origem do texto: violar sigilo profissional é infração disciplinar (Lei 8.906/1994, art. 34, VII), e peticionar com base em fonte inexistente compromete quem subscreve, não a ferramenta. A ferramenta apoia a produção; não divide a responsabilidade.
Não confundir com
revisão humana, que é a leitura de trechos das suas conversas por pessoal do fornecedor. São coisas opostas: uma é dever seu, a outra é característica do serviço.
Erro comum
tratar validação como leitura de conferência final. Validar é abrir a fonte citada, confrontar o resumo com o documento e verificar se a alteração de redação preservou o sentido jurídico.
Exemplo
Sugestão de clareza que, ao eliminar uma subordinada considerada redundante, suprime a ressalva que delimitava o pedido.

Supervisão humana (human oversight)

Conceito
Acompanhamento humano ao longo de todo o processo, e não apenas na conferência do texto final. Envolve decidir o que se delega, em que etapa a ferramenta entra, que tipo de resposta se admite e quando o fluxo deve ser interrompido.
No trabalho jurídico
A supervisão precisa ser proporcional à autonomia concedida. Conversa em que cada resposta passa pelo seu olho exige uma coisa; agente que lê uma pasta e executa etapas sozinho exige outra, com pontos de aprovação definidos antes do início. Supervisionar depois de a ação ter sido executada não é supervisão, é constatação.
Não confundir com
validação humana, que é a conferência do produto. A supervisão é contínua e alcança o desenho do fluxo; a validação é pontual e alcança o resultado.
Exemplo
Ao usar IA para comparar versões de uma petição, delimitar desde o início que a ferramenta apenas destaque alterações e não proponha modificação de fundamentos — em vez de corrigir o excesso depois de recebido.

Guardrails

Conceito
Limites impostos à atuação da ferramenta para reduzir desvios e saídas fora do escopo desejado. Podem vir do fornecedor, embutidos no produto, ou ser definidos pelo usuário em instruções permanentes e configurações do fluxo.
No trabalho jurídico
Servem bem para o que é rotineiro: não reformular fundamentos, não acrescentar precedente não fornecido, separar problema de forma de problema de conteúdo. Fixam um padrão de trabalho e poupam repetição.
Erro comum
tratá-los como garantia. Guardrails definidos em linguagem natural são orientação, não impedimento técnico: reduzem a frequência do desvio sem eliminá-lo, e não resistem a instrução injetada em documento. O que impede uma ação é a permissão negada, não a instrução de não fazê-la.
Exemplo
Instrução permanente para nunca citar jurisprudência não fornecida. Reduz muito a incidência; não dispensa a conferência de cada citação que apareça.