Agentes, automação e delegação
O vocabulário da delegação: o que muda quando o sistema executa etapas sozinho, como se gradua a autonomia e onde o fluxo precisa parar para pedir aprovação.
Este bloco reúne uma seleção temática dos mesmos verbetes disponíveis no Vocabulário completo.
Verbetes deste bloco
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Agente (agent)
- Conceito
- Sistema que executa tarefas em etapas com algum grau de autonomia: recebe um objetivo, decide os passos, aciona ferramentas, avalia o resultado de cada passo e prossegue — sem que cada movimento seja pedido pelo usuário.
- No trabalho jurídico
- O agente pode realizar várias etapas entre intervenções humanas, mas também pode apresentar um plano, pedir aprovação e permitir interrupção. Defina o que ele pode executar, o que exige decisão prévia e quais registros permitirão conferir o percurso.
- Não confundir com
- automação. A automação repete passos fixos que alguém definiu; o agente escolhe os passos. Previsibilidade e flexibilidade trocam de lugar.
- O que decidir
- Antes do primeiro uso: o que ele pode ler, o que pode escrever, o que não pode fazer sozinho e onde para para pedir aprovação.
- Exemplo
- Agente que recebe duas versões de uma peça e devolve quadro com alterações de linguagem, mudanças de conteúdo e possível impacto sobre a tese — lendo os arquivos, comparando e formatando a saída, em etapas próprias.
Fontes conceituais Anthropic — agentes e fluxos
Automação (automation)
- Conceito
- Execução automática de uma tarefa, ou de parte dela, com pouca ou nenhuma intervenção humana a cada repetição.
- No trabalho jurídico
- Pode apoiar tarefas repetidas, como inventariar arquivos e montar quadros de dados. A seleção dos critérios e a avaliação da pertinência jurídica dos resultados continuam a exigir exame próprio.
- Erro comum
- estender a automação ao juízo. Nem toda tarefa jurídica é automatizável com segurança, e a fronteira não é técnica: automatiza-se a etapa operacional, não a decisão sobre o que a etapa produziu.
- Exemplo
- Extrair de um conjunto de decisões os campos número, órgão julgador, pedido apreciado, resultado e prazo. Decidir quais dessas decisões servem à tese não pertence ao mesmo fluxo.
Autonomia graduada (graduated autonomy)
- Conceito
- Forma de distribuir a autonomia por etapas e ações: apenas propor; executar após aprovação; ou executar ações previamente delimitadas, com acompanhamento e registro. A graduação depende do risco e dos efeitos possíveis, não só da capacidade da ferramenta.
- No trabalho jurídico
- A escala é útil porque permite casar o grau de autonomia com a reversibilidade da ação e com o risco do material. Ler uma pasta e propor uma organização é um degrau; renomear os arquivos é outro; enviar uma peça é outro ainda. Conceder o degrau mais alto porque o mais baixo funcionou bem é o erro de progressão mais comum.
- O que decidir
- Comece pelo degrau em que o sistema propõe e você executa. Suba um degrau por vez, e só depois de o anterior ter corrido sem correção relevante por um número razoável de repetições.
- Exemplo
- Agente de triagem documental que, nas primeiras semanas, apenas sugere a classificação; depois passa a aplicá-la em pastas de trabalho; e nunca alcança a pasta de peças protocoladas.
Permissão de ação (action permission)
- Conceito
- Autorização técnica concedida ao sistema para operar sobre um recurso determinado. Ler, criar, alterar, apagar e enviar são permissões distintas, e cada uma pode ser concedida ou negada separadamente.
- No trabalho jurídico
- Uma permissão aplicada pelo ambiente limita o que o sistema pode fazer, independentemente do pedido em linguagem natural. Confira o alcance real: acesso de leitura, acesso à rede e escrita são controles distintos. Restrinja cada recurso ao necessário e teste se a restrição funciona.
- O que decidir
- Conceda o mínimo necessário à tarefa e revise depois. Permissão concedida em caráter excepcional tende a permanecer concedida, porque ninguém volta para revogá-la.
- Exemplo
- Em exercício fictício, o agente lê uma pasta sem permissão para alterar seus arquivos. Ainda é necessário conferir se pode enviar conteúdo pela rede; impedir escrita não elimina, por si só, o risco de exposição.
Ponto de aprovação (checkpoint, human-in-the-loop)
- Conceito
- Etapa do fluxo em que a execução para e aguarda decisão humana antes de prosseguir.
- No trabalho jurídico
- Coloque a aprovação antes de atos com efeitos relevantes, como envio de mensagem, publicação ou protocolo. Ela também pode ser necessária antes de alterações reversíveis em documentos importantes. A conferência deve mostrar a ação proposta, seu alcance e o resultado que será utilizado.
- Erro comum
- aprovar automaticamente por excesso de interrupções ou por falta de informação. Escolha os pontos conforme o risco e apresente um resultado concreto para conferência; o número de aprovações, isoladamente, não demonstra controle.
- Exemplo
- Fluxo de organização documental que executa a leitura e a proposta de classificação sozinho, para antes de mover qualquer arquivo, e só retoma depois da conferência da lista.
Ação irreversível (irreversible action)
- Conceito
- Ação cujo efeito não se desfaz pelo próprio sistema: enviar mensagem, protocolar, apagar sem lixeira, sobrescrever arquivo sem versão anterior, conceder acesso a terceiro, publicar.
- No trabalho jurídico
- Envio, compartilhamento e protocolo podem produzir efeitos que a exclusão do arquivo não desfaz. Defina a conferência e a autorização necessárias antes da ação.
- O que decidir
- Liste, antes de ligar o fluxo, quais ações dele são irreversíveis. Se a lista não estiver clara, o fluxo ainda não está pronto para rodar sobre material real.
- Exemplo
- Automação de organização de pasta que sobrescreve arquivos de mesmo nome. A operação é banal, o efeito é definitivo, e a versão anterior da minuta não volta.
Workflow
- Conceito
- Sequência organizada de etapas pela qual uma tarefa ampla é executada, com entrada, ordem definida e produto final.
- No trabalho jurídico
- Permite definir onde a IA participa da leitura, comparação e revisão, quem confere cada resultado e como tratar falhas. O procedimento deve preservar os documentos de referência.
- Não confundir com
- encadeamento de prompts, que é a divisão de um pedido dentro de uma conversa. O workflow é o procedimento, e sobrevive à conversa.
- Exemplo
- Revisão de minuta: leitura; identificação de problemas formais; comparação com a versão anterior; marcação das alterações de conteúdo; validação pelo advogado — nessa ordem, sempre.
Tarefa (task)
- Conceito
- Unidade delimitada de trabalho, com objetivo único, material definido e resultado reconhecível.
- O que decidir
- Um teste simples: se você não consegue dizer como saberá que a tarefa foi bem executada, ela ainda não está recortada.
- Exemplo
- Separar “identificar repetições”, “apontar passagens ambíguas” e “verificar coerência entre fundamentos e pedido” em três pedidos, cada um com produto conferível.
Execução (run)
- Conceito
- Cada rodada concreta de um fluxo ou agente, com seu material de entrada, seus passos e seu resultado. O mesmo fluxo produz execuções distintas a cada aplicação.
- Exemplo
- Cinquenta decisões analisadas pelo mesmo fluxo geram cinquenta execuções. Ao encontrar erro na décima sétima, é possível verificar se as instruções mudaram no meio da série.
Handoff
- Conceito
- Passagem de uma tarefa de uma etapa, função ou agente para outro, com transferência do produto da etapa anterior.
- No trabalho jurídico
- Ao passar da pesquisa para a redação, transfira também fontes, versões, lacunas e limites da análise. Uma conclusão provisória não deve chegar à etapa seguinte como fato confirmado.
- Não confundir com
- delegação. O handoff é passagem entre etapas de um fluxo desenhado; a delegação é a decisão, humana, de entregar a tarefa à máquina.
- Exemplo
- Um agente resume a decisão; o seguinte transforma o resumo em quadro de providências. Se o resumo trocou o fundamento determinante, o quadro sai coerente e errado.
Ferramenta (tool)
- Conceito
- Recurso externo que o modelo pode acionar para fazer o que ele próprio não faz: ler um arquivo, buscar na internet, executar um cálculo, consultar uma base, gravar um documento.
- Exemplo
- Localizar, em quarenta documentos, todas as passagens em que aparece determinada cláusula exige uma ferramenta de busca em arquivos; sem ela, o modelo responde por aproximação sobre o que couber na janela de contexto.
Skills
- Conceito
- Módulos de instrução especializados que um agente carrega quando a tarefa os exige, reunindo método, formato e cautelas de determinado tipo de trabalho.
- No trabalho jurídico
- Permitem organizar instruções, modelos e recursos de um procedimento recorrente, como síntese de decisões ou revisão de minutas. Reutilizar a mesma orientação favorece consistência, mas não assegura execução idêntica nem dispensa conferência.
- Não confundir com
- instrução permanente, que vale para tudo. A skill entra em cena apenas quando aquele tipo de tarefa aparece.
- Exemplo
- Skill de conferência pré-protocolo: competência, tempestividade, correspondência entre fundamentos e pedido, nomes, datas e anexos — sempre na mesma ordem.
Fontes conceituais Agent Skills — instruções e recursos reutilizáveis
AGENTS.md
- Conceito
- Arquivo de instruções colocado dentro de um projeto para orientar o agente que ali trabalhar: regras, limites, padrões de organização e forma de atuação.
- Erro comum
- escrever o arquivo e presumir observância integral. Vale o que vale toda instrução em linguagem natural: reduz o desvio, não o elimina.
- Exemplo
- Arquivo que fixa, para o projeto de um caso: não alterar a tese central; não citar precedente que não esteja na pasta; separar problema de forma de problema de conteúdo; nunca sobrescrever versão anterior de minuta.
Sandbox
- Conceito
- Ambiente de execução com restrições de acesso a arquivos, rede e outros recursos. O isolamento depende das regras e permissões efetivamente configuradas; não implica ausência absoluta de acesso externo.
- No trabalho jurídico
- Ajuda a limitar os efeitos de um teste, conforme os recursos isolados e as permissões concedidas. Antes da execução, confira se há acesso à rede ou escrita em pastas compartilhadas. Isolamento de execução e proteção de sigilo exigem verificações distintas.
- O que decidir
- Teste todo fluxo novo sobre cópias, em ambiente isolado, antes de apontá-lo para a pasta de trabalho. Se o material do teste for sensível, o isolamento não dispensa a avaliação do fornecedor.
- Exemplo
- Rodar a nova lógica de renomeação sobre uma cópia de vinte arquivos e conferir o resultado antes de aplicá-la ao acervo.
Fontes conceituais NIST — sandbox
MCP (Model Context Protocol)
- Conceito
- Protocolo aberto que padroniza como uma ferramenta de IA se conecta a fontes externas de dados e a sistemas — arquivos, bases, aplicativos. Em vez de uma integração feita sob medida para cada par de sistemas, um padrão comum.
- O que decidir
- Trate cada conexão como concessão de permissão, e não como recurso de conveniência: o que ela lê, o que ela pode alterar, e se continua necessária depois de encerrado o trabalho que a motivou.
- Exemplo
- Em exercício fictício, uma conexão permite consultar uma pasta de documentos. O protocolo padroniza a comunicação; o acesso efetivo depende do servidor, da autenticação e das permissões concedidas.
Fontes conceituais MCP — arquitetura e comunicação
Conector (connector)
- Conceito
- Ligação configurada entre a ferramenta de IA e um serviço externo — e-mail, agenda, nuvem de arquivos, sistema interno — que permite a leitura e, conforme a permissão, a alteração de conteúdo naquele serviço.
- No trabalho jurídico
- Confira quais pastas, mensagens ou serviços ficam acessíveis e se a conexão permite alterações. Uma autorização para localizar um documento não deve ser presumida como acesso irrestrito ao acervo.
- O que decidir
- Revise as concessões periodicamente e revogue o que não estiver em uso. Conector de leitura sobre caixa de entrada é também a principal porta de entrada para injeção de instrução.
- Exemplo
- Autorização concedida para localizar um contrato específico na nuvem do escritório, que permanece ativa meses depois, alcançando pastas de casos que nada tinham a ver com aquele pedido.
API (Application Programming Interface)
- Conceito
- Interface que permite a um programa acionar outro diretamente, sem passar por tela. É o caminho pelo qual sistemas trocam dados e funções entre si.
- No trabalho jurídico
- O acesso por API pode ter contratação, cobrança, retenção e condições de uso de dados próprias. A interface técnica não assegura proteção superior: confira os termos aplicáveis ao serviço, à conta e à operação antes de processar documentos.
- Não confundir com
- conector. O conector é a ligação já configurada, oferecida pelo produto; a API é o meio técnico que a torna possível, e cujo uso direto exige desenvolvimento.
- Exemplo
- Rotina que envia mil decisões para análise e recebe os resultados em formato estruturado, sem que ninguém abra a interface do produto.
Chave de API (API key)
- Conceito
- Credencial que identifica quem está acionando um serviço por API e a que conta atribuir o uso e o custo. Funciona como senha, com a diferença de circular dentro de arquivos de configuração.
- No trabalho jurídico
- A exposição da chave pode permitir uso indevido do serviço e gerar custos. Não a inclua em minutas, conversas ou arquivos compartilhados; confira o alcance da credencial e as condições de revogação.
- O que decidir
- Uma chave por finalidade, guardada fora dos arquivos do projeto, substituída quando alguém deixa a equipe ou quando houver suspeita de exposição.
- Exemplo
- Chave incluída em arquivo de configuração enviado por e-mail ao suporte de um fornecedor, e nunca substituída depois.
Log
- Conceito
- Registro sequencial de eventos de um sistema: o que foi executado, quando, sobre qual material, com qual resultado ou falha.
- No trabalho jurídico
- O registro pode ajudar a conferir quais arquivos foram lidos e quais falharam. Verifique sua abrangência e proteja seu conteúdo: registros também podem conter dados pessoais, trechos sigilosos ou credenciais.
- Não confundir com
- rastreabilidade, que é a propriedade. O log é um dos meios de obtê-la.
- Exemplo
- Registro que mostra que três dos quarenta arquivos falharam na leitura por má digitalização — e que, portanto, não entraram na análise que se acreditava completa.
Rastreabilidade (traceability)
- Conceito
- Possibilidade de reconstruir o percurso de elaboração de um texto ou fluxo: o que foi alterado, quando, por quem ou por qual sistema, e a partir de qual versão.
- No trabalho jurídico
- Ajuda a identificar qual documento e versão sustentaram uma minuta, quais alterações foram feitas e quem as conferiu. Preserve esse percurso junto dos materiais de referência.
- O que decidir
- Distinga, no registro, o que mudou de forma e o que mudou de conteúdo. É a distinção que qualquer conferência posterior vai procurar primeiro.
- Exemplo
- Petição revisada internamente e depois ajustada com apoio de IA, em que se consegue identificar cada intervenção e separar reescrita formal de alteração substancial.
Template
- Conceito
- Modelo pré-estruturado que serve de base à repetição organizada de um documento ou de uma análise.
- No trabalho jurídico
- Bem usado em quadros de análise, roteiros de revisão e sínteses de decisão, onde a uniformidade é o que permite comparar. O cuidado é conhecido de qualquer banca: modelo aplicado sem releitura carrega para o caso novo o que pertencia ao antigo — e o parágrafo herdado costuma ser exatamente o que o adversário nota.
- Não confundir com
- schema. O template organiza o texto para leitura humana; o schema define campos para processamento.
- Exemplo
- Modelo de síntese de decisão com órgão julgador, pedido, fundamento determinante, resultado, prazo e observações, aplicado a toda a série.
Checklist
- Conceito
- Lista de verificações a cumprir antes de concluir uma tarefa, com itens formulados como ação e na ordem de execução.
- No trabalho jurídico
- Em uma revisão de minuta, use itens verificáveis, como conferir nomes, datas, anexos e correspondência entre fundamentos e pedidos. A lista ajuda a evitar omissões, mas não substitui o exame do conteúdo.
- Erro comum
- checklist longo demais para ser cumprido, que passa a ser assinado sem leitura. Doze itens cumpridos valem mais que quarenta ignorados.
- Exemplo
- Conferência pré-protocolo: competência, tempestividade, correspondência entre fundamentos e pedido, valor da causa, nomes e qualificações, datas, anexos, assinatura.
Chatbot
- Conceito
- Sistema que interage por conversa, em texto ou voz. Pode usar regras predefinidas ou modelos de IA; o formato de conversa não informa, sozinho, quais ações o sistema pode executar.
- Exemplo
- Em exercício fictício, o chatbot explica os campos de um quadro de leitura; a conferência do quadro e das fontes permanece com o participante.
Fontes conceituais IBM — chatbots
Assistente de IA
- Conceito
- Aplicação de IA que auxilia o usuário em tarefas. Pode combinar conversa, arquivos e ferramentas; o nome assistente não estabelece um grau uniforme de autonomia.
- Exemplo
- Em exercício fictício, o assistente compara duas versões de uma minuta e apresenta diferenças, sem substituir o original.
Fontes conceituais Anthropic — sistemas com ferramentas e memória
Princípio do menor privilégio (least privilege)
- Conceito
- Princípio de segurança pelo qual usuários e sistemas recebem apenas os recursos e autorizações necessários à função atribuída. Aplica-se ao alcance do acesso, às operações permitidas e à duração da autorização.
- No trabalho jurídico
- Defina se a ferramenta precisa ler, criar, alterar ou enviar e restrinja o acesso ao material pertinente. Acesso de leitura pode permitir exposição de conteúdo; confira também rede, compartilhamento e serviços conectados.
- Não confundir com
- ponto de aprovação. O menor privilégio delimita capacidades; o ponto de aprovação exige uma decisão antes de executar determinada ação. Os controles podem ser combinados.
- Exemplo
- Em exercício fictício de inventário, permitir leitura apenas da pasta de amostra, sem escrita nos originais e sem acesso a e-mail ou outras pastas.
Fontes conceituais NIST — least privilege